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ERVA MATE, UMA RIQUEZA DE CAMPO ERÊ

Publicado em 14/12/2013 às 12:11 - Atualizado em 25/06/2016 às 19:44

A existência de áreas de campo, na maior parte das terras que compreende o atual território do município de Campo Erê, era coberta por matas de araucárias e erva mate, além de madeiras nobres. Pelas condições favoráveis do clima e do solo havia grandes manchas de ervais. A ilex-paraguaiensis, como é conhecida no mundo científico.

Em 1810, uma expedição iniciou a formação de fazendas destinadas àpecuária extensiva nos Campos de Guarapuava e Palmas. Todavia, a ocupação desta última desenvolveu-se somente a partir de 1838, cuja significativa procura pelos fazendeiros para instalar-se nesses campos, possibilitou a ocupação dos Campos do Erê localizado mais a Sul e mais a oeste dos Campos de Palmas.

Paralelo à implantação das fazendas de gado existia a intenção pelo governoda Província de São Paulo em interligar estes campos com a região das missões,mais precisamente até Cruz Alta (RS), cuja vila possuía contato com a estrada de Vacaria às Missões. Essa nova estrada passava por uma região rica em ervais, que impulsionou a ocupação das áreas de mata, sobretudo porque no estado do Paraná( Campo Erê fazia parte do território) a atividade ervateira já desempenhava importante papel na economia provincial. A medida que aumentava o fluxo das tropas, intensificava a importância dos ervaispela exploração .

A implantação da pecuária extensiva permitiu maior comunicação com asdemais regiões brasileiras, todavia não conseguiu fomentar significativamente aocupação humana, caracterizando os campos com baixa demografia. Acrescenta-seque os ocupantes das áreas de mata não realizaram uma ocupação fixa, mas em caráter de seminomadismo. Paralelamente a indefinição das fronteiras entre Brasil e Argentina adicionava a referido contexto um aspecto negativo que se elevava dianteda presença de argentinos, provindos principalmente da região de Corrientes,que exploravam ervais na região. A partir de 1882, com objetivo de efetivar o domínio brasileiro para a regiãocontestada, mediante a ocupação humana com a concessão de títulos depropriedade de terras para os habitantes, igualmente promover a “civilização”.

O tropeirismo, mesmo com seu caráter despovoador, possibilitou o contato com outras regiões do país, principalmente com São Paulo, onde era comercializado o gado, muares e equinos.

Essa atividade passou a ser utilizada como meio geopolítico de ocupação do território, não sendodiferente para aquele que corresponde a Campo Erê, e fortemente relacionado com a Questão de Palmas.

Ao lado da pecuária, a extração da erva-mate emadeira corresponderam a fonte de renda que sustentou Campo Erê nos primeiros anos de ocupação em finais do século XIX. Em alguns casos, instalavam-se junto àsfazendas degado, em pequenas porções de terras concedidas também famílias debaixa renda que viriam a prestar serviços para o fazendeiro, recebendo em troca aconcessão de terra para construir a moradia e produzir gêneros alimentícios.

Esses últimos serviam tanto para autoconsumo como para comercialização com ofazendeiro e comércio local. No período de safra da erva-mate dedicavam-se àexploração dessa, que consistiam na fonte de renda das famíliaspredominantemente.

Inicialmente a exploração econômica dos ervais esteve sempre ligada ao Rio Grande do Sul e Argentina. Porém, o comércio era mais frequente com a Argentina. Era para a Argentina que se tropeavam pequenas tropas de gado e mulas carregadas de erva mate, para comercializar quando faltavam gêneros de primeira necessidade. A erva mate cancheada era levada até o Rio Paraná de onde era transportada para os centros consumidores do Uruguai e Argentina. Na Argentina era comum o comércio com a cidade de Possadas, capital da Província de Missiones, onde se comprava diversos produtos de consumo, inclusive roupas. A viagem se dava pela via que ligava Palmas a Corrientes, aberta a mando do governador da Província de São Paulo, e pelo Rio Paraná.

Até o final do século XIX e início do século XX, a região de Campo Erê bem como o Extremo Oeste Catarinense estava em total abandono por parte do governo. Desse modo, era deficitário o controle da saída da erva mate para a Argentina e outras regiões do Brasil. Mesmo que houvesse enorme preocupação do governo paranaense e do governo gaúcho no controle da cobrança de impostos, também o governo argentino pretendia manter certo controle com a entrada ilegal da erva, proveniente da região da fronteira.

Não se tem conhecimento da quantidade de erva produzida por falta de qualquer controle público. A erva mate nativa era abundante se concentrando a sua produção na Fazenda Araçáe Fazenda São Vicente, hoje mais conhecida como Caldato. O padre Achyles Saporiti se instalou, bem como foi proprietário da Fazenda São Vicente, nessa região, no final do século XIX, onde sua principal atividade econômica foi a erva mate.Era para a Argentina que se tropeavam pequenas tropas de gado e mulas carregadas de erva mate, para comercializar quando faltavam gêneros de primeira necessidade. Em “Baracón”, Argentina, na fronteira com o atual município de Dionísio Cerqueira, encontrava-se facilmente sal, banha, fósforo, querosene e munição, indispensável para a vida nos campos, bem como, para aqueles que se embrenhavam nas matas à procura de erva mate.

Até o ano de 1910, aerva mate, junto com o gado, foi a principal riqueza , chamada de ouro verde pelo seu alto valor econômico.A erva mate cancheada, isto é, à erva seca e separada dos galhos maiores, que era enviada para os soques de beneficiamento. A erva mate na região estava assim como o café em São Paulo ou o açúcar no Nordeste.

A falta de estradas e a distância dos mercados consumidores inviabilizaram a sua industrialização, e o beneficiamento da erva cancheada era feita por pequenos monjolos e pilões.

Nas primeiras décadas deste século as possibilidades de escoamento da erva restringiam-se a três pontos: em direção ao Oeste, à Argentina, pela fronteira com Dionísio Cerqueira, ao Sul, ao Rio Grande do Sul , principalmente por Goio-en; e ao Leste, à estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande do Sul, em Cruzeiro (atual Joaçaba).

A Argentina também avançava na industrialização, aproveitando-se da economia gerada pelo mate. Em finais do século XIX, já eram visíveis os sinais para a proteção de suas indústrias. A erva era contemplada com a criação de ‘recargos’ aduaneiros abusivamente discriminatórios. Assim, a proteção para a indústria argentina proporcionava um aumento nas exportações de erva cancheada, bem como do contrabando. Aquela erva retirada em terrenos devolutos, por estrangeiros sem vínculo com o Estado, não proporcionava nenhum benefício para Campo Erê. O contrabando, muitas vezes, era praticado por argentinos. É uma explicação satisfatória para as intrigas criadas entre brasileiros e argentinos, dentre elas a Questão de Palmas, onde , segundo alguns historiadores, a riqueza da erva mate seria o principal motivo da Argentina para reivindicar a área de terras.

Economicamente, o município não passou de um fornecedor de matéria prima para as indústrias que se instalaramnos Estados vizinhos e Argentina.A crise da erva mate, a partir de 1910, as pequenas indústrias de Campo Erê e região viriam a sucumbir.  Registra-se que o transporte da erva mate para os centros consumidores era feito no lombo de mulas em bruacas de couro. Em dias de chuva, o produto umedecia com facilidade, ocasionando a perda da qualidade e competitividade no mercado, acarretando uma redução no valor do produto. Soma-se a isso o fraco mercado consumidor local, pois, verifica-se que os moradores da região, ainda que em pequeno número, produziam erva mate para seu próprio consumo.  

 

Campo Erê compartilhou com outras regiões produtoras da crise do mate, mas também de sua prosperidade.  Nessa região onde estava localizada a área de campo, o fluxo comercial era maior, dado o comércio de gado e muares que eram indispensáveis nos transportes.

A extração da erva-mate era realizada pelos caboclos que levavam um modo de vida rudimentar, vivendo em pequenos ranchos, feitos de troncos de árvores e cobertos com capim ou tabuinhas. Também possuíam pequenas roças de subsistência, e criavam alguns animais soltos como, galinhas, porcos e algumas cabeças de gado. Mudavam de um lugar para outro com frequência. 

A atividade de extração da erva mate se relaciona como uma atividade nômade. A sazonalidade dessa atividade e o intervalo de tempo entre uma poda e outra requer o deslocamento daqueles que a extraem. A extração das folhas da erva até o período da próxima colheita demora em torno de três anos. Assim, justifica-se o nomadismo da atividade. Logo, não havia necessidade de as pessoas habitarem o local, preferindo concentrar-se próximo aos povoados argentinos. Deslocavam-se com seus poucos haveres, instalando-se ora aqui,

ora acolá, vivendo da caça, das pequenas roças de subsistência, geralmente cuidadas pelas mulheres, e da extração da erva, que era vendida aos ervateiros ou aos intermediários. Esses indivíduos eram conhecidos, também, como andarilhos do mato.

A atividade agrícola, pequena roça de subsistência, ficou conhecida como roça cabocla. Essa população adotava uma prática costumeira de dividir as terras em terras de plantar e terras de criar, como eram nominadas internamente . As terras de plantar localizavam-se distantes da casa, e o método adotado no cultivo consistia na derrubada do mato e a queima. Após a queima, era feito o plantio em covas abertas com a ponta da foice ou com uma cavadeira feita de madeira. Não era necessário a capina da roça, pois a terra fértil favorecia o rápido crescimento do milho ou feijão, assim o mato não competia com os produtos. Já as terras de criar ficavam próximas da casa. Criavam-se animais domésticos como: porcos, galinhas, cavalos, bovinos.

Para a criação de porcos havia um ‘sistema primitivo’, segundo Lobato, que era o do porco alçado, criado exclusivamente com frutos, como a imbuia, pinhão e vegetais e o único cuidado dispensado era o sal. Outro modo era a safra. A safra consistia na derrubada do mato, queima da área e plantio de milho e abóbora. Após o amadurecimento desse plantio, os animais eram soltos e criavam por si. Após a engorda, os animais eram tropeados até o mercado consumidor. Esta atividade, aos poucos, foi incorporada pelos imigrantes, em que alguns colonos cercavam uma determinada área para criação de porcos, impedindo que estes se espalhassem ou viessem a destruir as plantações vizinhas. Aliás, a criação de porcos soltos, atividade realizada no início da colonização, foi fator de atrito entre caboclo e imigrante.

Nos anos de 1910 a 1920, o ciclo da erva-mate entrou em decadência, principalmente porque o desenvolvimento e o aumento da produção argentina, principal consumidora do produto, não estimulava a extração e o transporte até os locais de comércio naquele país. Assim a erva mate, como atividade econômica, foi pouco expressiva até na época atual. A criação de gado continuou e houve um grande incremento na exploração de madeira, especialmente de araucária, abundante nas áreas de erva mate, que teve o seu auge entre os anos de 1960 até 1980. Após essa data, grandes áreas de campo e de florestas foram ocupadas pela soja e que mudou todo o perfil da propriedade, da exploração econômica, e da organização social. Os caboclos e os agricultores familiares, com a nova ordem econômica estabelecida, vieram para a cidade engrossando os cordões de pobreza e aumentando os problemas sociais.

Hoje a atividade da exploração da erva mate persiste em pequena escala, com algumas indústrias instaladas, podendo ser consideradas de pequeno porte. A erva mate utilizada provem das pequenas áreas nativas ainda existentes, algumas poucas áreas cultivadas, e do Paraná. As principais marcas de erva matesão a Bandeirantes e a Iomat.

 

Pesquisa : Nelson Tresoldi


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